Um comentário do jornalista e escritor Luis Leiria: Se escrevesse um texto de ficção com este enredo, todos iam desprezá-lo por ser inverossímil.

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Luis Leiria, jornalista e escritor

“Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem verdadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos”, disse uma vez Luigi Pirandelo. Por outras palavras: a vida supera a arte em inúmeras ocasiões. Quantas vezes não pensei, diante de acontecimentos realmente absurdos: “Se escrevesse um texto de ficção com este enredo, todos iam desprezá-lo por inverossímil”.
Vem isto a propósito da atual crise de refugiados e do conto “ O Inferno de Outro Mundo”, que deu o título ao meu primeiro (e único, até agora) livro. A história dos sem-abrigo confinados em guetos, atrás de muros, e alimentados por uma ração que os fazia perder a memória parece até pouco imaginativa diante do cortejo de horrores do êxodo dos refugiados que procuram chegar, de todas as formas possíveis, à Europa.

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O conto, cujo título é uma homenagem a Aldous Huxley, começou a ganhar forma num sonho. Eu e a Cristina éramos um casal de sem-abrigo e passávamos a noite junto ao portão de um parque. Nos pilares que sustentavam a pesada porta de ferro, havia umas inscrições que não conseguia decifrar. Subitamente, estas como que se baralhavam e começavam a fazer sentido. Foi assim que se formou na minha mente um dos momentos que mais gosto do conto, quando o personagem José começa a recuperar a memória e descobre que afinal sabe ler, diante do deleite da sua amiga (na verdade mulher) Maria.
Não é muito habitual sonhar com aquela que é minha companheira há mais de 33 anos, mas sim, desta vez era ela que estava comigo. Não sei porque decidi criar uma Maria muda. Ou por outra, até sei – tornou o personagem mais interessante, criando uma limitação ao elemento dominante do casal (não é o que estão a pensar, não quis vingar-me da Cristina).

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Aldous Huxley: um dia responderemos à sua dúvida
Há muito que queria escrever uma distopia, e assim fui construindo a história com referências que me iam ocorrendo, algumas conscientes, outras não. Os muros (que evocam a Palestina), a questão da memória que a elite dominante quer apagar a todo custo – na altura, a direita em Portugal defendia a desvalorização do ensino da História, entre outras questões mais ou menos conscientes. A estrutura do conto (algo que aprendi a dar muita importância) fi-la em duas partes, a primeira seguindo a narração subjetiva do José, a segunda a da Maria, que revela finalmente o conjunto da distopia.
Se fosse hoje, certamente que o teria escrito de outra forma, à luz dos cortejos massivos dos refugiados a vaguear pela Europa em busca de um buraco na vedação que lhes permita atingir a “terra prometida” germânica.
Aliás, veio de um bom amigo que mora na Alemanha a sugestão de transformar o conto num romance. Comecei a fazê-lo, escrevi dois capítulos e parei, sentindo-me num impasse: estava a escrever um romance de ação, e o tema pedia um romance mais filosófico. Abracei outro projeto, mas ainda vou regressar. Um dia nascerá o romance “O Inferno de outro mundo”.
E um dia responderemos à dúvida de Huxley: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”. Passaremos para esse outro mundo, porque lá só pode ser o Paraíso.
PS: Quem tiver interesse, o livro O Inferno de Outro Mundo tem página aqui no Facebook, onde há também um link para os eventuais interessados em comprá-lo.

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