A Única Saída Possível é o Exercício da Solidariedade Irrestrita entre Seres Humanos Decentes – entrevista com José Arbex Jr.

A Flecha: Você escreveu um artigo para a revista Caros Amigos com o título “Tambores da Barbárie” onde demonstra que o processo da queda do Império Romano ocorreu de maneira lenta e levou vários séculos. Nele você defende que os sinais de instalação de um período semelhante já são visíveis nos dias atuais. Fale um pouco sobre isso. Coisas que você gostaria de ter desenvolvido em seu artigo e que não foi possível por razões de espaço editorial.

De fato, faço essa comparação com Roma, que, aliás, não é minha, mas faz parte da tradição marxista (o próprio conceito de barbárie é bastante complexo. Sobre isso, recomendo, fortemente, a leitura de um excelente artigo, escrito por John Bellamy Foster e Brett Clark, respectivamente editor e colaborador da revista Monthly Review, que pode ser encontrado no endereço http://resistir.info/mreview/barbarie.html#notas_1_10). No meu artigo, apenas tento chamar a atenção para o fato de que aquilo que foi apontado como uma possibilidade teórica por Marx, Engels e Rosa Luxemburgo, entre tantos outros, hoje é uma realidade incontestável. O problema é derivar todas as consequências políticas disso. Quando presenciamos as ações do imperialismo estadunidense no mundo, não de hoje, mas a partir da destruição nuclear de Hiroshima e Nagasaki; quando vemos a lógica nazista do campo de concentração dominar a política mundial contemporânea, sob a forma da “biopolítica”, ou como aparece explicitamente na “crise dos refugiados”; quando as 85 famílias mais ricas acumulam a mesma fortuna que 3,5 bilhões dos seres humanos mais pobres; quando um sujeito inclassificável como Donald Trump ganha e mantém a posição, durante vários meses, de candidato preferido do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, com uma plataforma que prevê a deportação de 11 milhões de seres humanos – tudo isso e muito mais (a lista de horrores é interminável, e poderia incluir, por exemplo, a tragédia de Mariana) compõem um quadro que evoca, algo metaforicamente, o gesto de Calígula ao nomear o seu cavalo Incitatus ao senado de Roma (o animal seria conduzido ao posto de cônsul, se o imperador não tivesse caído antes). É o retrato perfeito da total desagregação política e moral de uma ordem que sucumbe às suas próprias contradições. No caso de Roma, a degeneração das elites, cuja riqueza era baseada no latifúndio e no trabalho escravo, foi um elemento central que permitiu a desagregação do exército, abrindo espaço para a invasão dos “povos bárbaros” situados na franja do império, levando à sua fragmentação territorial, até o colapso final. Se os 40 mil ex-escravos liderados por Espártaco (109 aC – 71 aC) tivessem vencido, a conversa seria outra. Em dezembro de 1918, menos de um mês antes de ser assassinada, Rosa Luxemburgo escreveu “Que querem os espartaquistas?”, em que, não por acaso, evocando o nome do gladiador revolucionário, postulou o dilema “socialismo ou barbárie”. A permanência do capitalismo, previu Rosa, implicaria a transformação do planeta num “amontoado fumarento de entulho”. É exatamente o que estamos presenciando hoje.
A Flecha: Em “O século XXI – Socialismo ou Barbárie”, Mészáros acrescenta ao famoso dilema colocado por Rosa Luxemburgo o seguinte parágrafo:

Se eu tivesse de modificar as palavras dramáticas de Rosa Luxemburgo com relação aos novos perigos que nos esperam, acrescentaria a “socialismo ou barbárie” a frase “barbárie se tivermos sorte”, no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital.

Você concorda com Mészáros em que podemos ter chegado a um ponto de inflexão histórico onde a construção de um “Modo de Produção Socialista”, com a derrubada do Capitalismo e do Capital, já não é mais uma perspectiva a ser considera e que a Barbárie é inevitável?

Nós já estamos mergulhados na barbárie, e nesse sentido ela é inevitável. Mas isso não significa, necessariamente, que todas as outras saídas estejam descartadas. A história é imprevisível, para a nossa sorte. Por exemplo, até o final de maio de 2013, ninguém ousaria afirmar que no mês seguinte haveria 2 milhões de pessoas nas ruas do Brasil, para exigir escolas e hospitais “padrões Fifa”. Eu estive em Berlim nos meses, semanas e dias anteriores a 9 de novembro de 1989, acompanhando a crise dos refugiados da Alemanha oriental, e ninguém falava na queda do muro. Se, no início de dezembro de 2001, alguém dissesse que, em menos de duas semanas, senhoras de classe média, muito bem vestidas e tratadas, saqueariam supermercados em Buenos Aires, no auge de uma crise política sem precedentes, esse alguém seria tratado como louco e motivo de zombaria. O próprio Lênin, no fim das contas, acreditava, no início de 1917, que não viveria para ver o triunfo da revolução na Rússia. Com isso, tampouco quero afirmar que a revolução é inevitável. Estou apenas chamando a atenção para o fato de que não podemos nos fechar em nenhum tipo de determinismo histórico. Mas é óbvio que o aprofundamento da barbárie piora, a cada dia, a condição de vida da imensa maioria da humanidade. Nesse sentido, concordo com Mészáros. Aliás, a cena em que a jornalista húngara Petra Laszlo golpeia um pobre menino sírio refugiado é um fotograma de nossa miséria. Não sei, obviamente, se ainda é possível a construção de um outro modo de produção alternativo ao capitalismo, nem muito menos se ele será socialista, mas não descarto essa possibilidade, embora reconheça que a cada dia ela está mais distante.

A Flecha: Voltando ao seu artigo na Caros Amigos. No último parágrafo você escreveu:

Impõe-se, agora, encontrar os caminhos que permitam sobreviver à agonia destruidora do capital. Uma agonia que pode durar décadas e séculos, se o planeta resistir à destruição.

Gostaria de aproveitar um gancho da última frase condicional “se o planeta resistir”. De certa forma, você concorda com Mészáros no tocante ao fator “sorte”. É isso? Você pensa que a única forma de resguardar o planeta da destruição seria a Barbárie?

Não penso em “sorte”, mas nos caminhos imprevisíveis da história, como mencionei anteriormente. Creio que o dever de cada um que se opõe à destruição promovida pelo capital é se manter atento, alerta, preparado para um período de grandes conturbações e transformações sociais e políticas. Isso se faz com participação política, no sentido mais amplo do conceito – lutas coletivas contra as desigualdades, as injustiças, a destruição ambiental, as várias segregações de gênero, raça, religião etc. – , e também com um preparo intelectual permanente, por meio de leituras, estudos, debates. Acho isso fundamental, até para reconhecer quando uma situação se apresenta. Isso nem sempre é fácil. Por exemplo, até hoje se discute o caráter das mobilizações de 2013: foram de direita ou de esquerda? Foram populares ou capitaneadas pela elite? Foram revolucionárias ou conservadoras? Precisamos estar preparados para enfrentar situações desse tipo.

A Flecha: A Física tem umas poucas leis fundamentais. Uma delas é a “Lei da Entropia”. Hoje, a hipótese é que a entropia do universo está em constante crescimento. Dito de outra, entre a “Ordem” e o “Caos” a Natureza “prefere” o Caos. Vou dar um exemplo para os nossos leitores, já que sei que você teve o seu início de vida universitária no campo da engenharia na Escola Politécnica da USP e esse assunto você conhece.
Um exemplo simples de como age a natureza é observar aquele monte de areia que foi erguido na sua calcada. Para a Natureza, essa “ordem” que existe nos grãos areia cuidadosamente empilhados é “muito” entrópica. Deixado a sua ação espontânea, ventos, chuvas, etc., irão espalhar esses grãos de areia do monte o mais distante uns dos outros, da forma mais caótica possível. O monte de areia na calçada só manterá a sua forma inicial se alguém cercar o “pé” do monte com uma barreira e periodicamente repor com uma pá à sua posição inicial as camadas de areia que “teimam” em escorrer pelo meio fio.
Assim como é visível que na teoria da mais-valia Marx usou no conceito de trabalho humano e sua apropriação pela burguesia na forma de Capital uma analogia com as Leis de Conservação de Energia, que só foram sintetizadas pela Física após o surgimento das máquinas térmicas, há também uma analogia entre “civilização” e “barbárie” e a lei da entropia. Ou seja: a Barbárie é o Caos e a Civilização é a Ordem que precisa diuturnamente que os agentes civilizatórios trabalhem para mantê-la. De certa forma, então, a civilização está em risco a cada segundo do dia.
Mesmo sem a perspectiva socialistas, você vê, na sociedade atual “agentes” civilizatórios? Quais são? Onde eles estão atuando?

Sou avesso à construção de analogias entre o desenvolvimento das sociedades humanas e os fenômenos regidos pelas leis da natureza. O ser humano, ao criar o mundo simbólico, distancia-se da natureza, onde não existe liberdade. Por exemplo, é equivocada ideia meramente poética de que uma borboleta voa livre pelos campos. Ela não é livre, no sentido de que o seu voo não é resultado de uma opção, mas de um impulso cego determinado pela necessidade de reprodução da espécie, ao longo de milhões de anos durante os quais aconteceu o processo de seleção natural. Da mesma forma, uma abelha, ao participar do esforço coletivo de produzir uma colmeia, não o faz a partir de um projeto, de uma projeção teleológica feita por algum arquiteto, mas sim como resultado do mesmo processo de seleção natural. A recorrência a metáforas biológicas para explicar as sociedades humanas pode produzir um pensamento catastrófico, como no caso do nazismo, para quem judeus, comunistas, socialistas e ciganos eram o “câncer” da sociedade, um “tumor” a ser extirpado. Aliás, não por acaso Josef Stalin também recorria a essa retórica. Justamente por ser contra o determinismo e acreditar na possibilidade da liberdade, descarto as visões fechadas de mundo. Nesse sentido, sim, há agentes civilizatórios em ação, não necessariamente socialistas ou marxistas, nem mesmo de esquerda no sentido tradicional do termo. Creio que qualquer um, hoje, que se posicione contra o extermínio da juventude negra nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e das metrópoles brasileiras, por exemplo, é um “agente civilizatório”, assim como qualquer um que apoie ações solidárias, coletivas e democráticas em defesa da dignidade humana, da luta contra a fome e a miséria. O problema é agregar todas essas ações esparsas, fragmentárias num movimento geral que consiga derrotar o capital. O desafio é esse.

A Flecha: Para terminar, vou te desafiar a fazer um esforço de “otimismo-realista”. Algo como fez Leon Trotsky num período histórico de horror, muito próximo do que estamos perto de reviver. No Programa de Transição, o velho colocou um conjunto de tarefas/bandeiras que as burguesias dos países atrasados são incapazes de realizar, mas que já tinham sido completadas pelas burguesias dos países ricos. Considerando o conjunto de conhecimento já acumulado pela humanidade na ciência e tecnologia, o quê precisaria ser imediatamente feito para evitar a catástrofe já prenunciada pelas mudanças climáticas que levarão à completa aniquilação de toda forma de vida na superfície do planeta Terra?

Sou completamente favorável ao diagnóstico feito por Trotsky. Sou cético quanto à solução proposta. Não creio que a crise da humanidade se resuma à crise de sua direção revolucionária, pois descarto a ideia de que cabe a uma vanguarda de seres iluminados – os chamados “quadros” partidários – liderar o caminho para a tomada do poder e a instauração de uma sociedade mais justa. Isso não funcionou na Rússia, na China, no leste europeu. Os trotskistas atribuem a “culpa” à Stalin. Mas essa tese é de um simplismo atroz, pois, no fundo, significa creditar ao georgiano um poder fantástico, quase divino, de impor a sua vontade pessoal aos rumos das sociedades. Mas, tampouco acredito na proposta anarquista de “abolir” o estado. Como fazê-lo? As instâncias de poder não vão desaparecer por um mero ato de vontade, como parece acreditar a criança que fecha os olhos com força, como se assim fosse desaparecer o monstro diante de si. Creio que David Harvey fornece algumas indicações interessantes, ao propor uma ação nos espaços urbanos – onde está concentrada a imensa maioria dos seres humanos – capaz de combinar as concepções anarquistas de poder local, ação imediata e organização coletiva das lutas com a tradição marxista de formulação de estratégias de tomada do poder. Enquanto as lutas forem fragmentadas, a priori, por divergências ideológicas e sectarismos partidários, estarão condenadas ao fracasso e à derrota. É ridículo adotar uma posição sectária diante do mar de lama de Mariana, da devastação da Amazônia, da matança de índios e negros, da violência generalizada contra as mulheres, em especial as negras. É monstruoso deixar de participar de uma luta unitária contra tudo isso que está acontecendo hoje, agora, imediatamente em nome de supostas discordâncias sobre projetos futuros. A única saída possível é o exercício da solidariedade irrestrita entre seres humanos decentes.

 

José Arbex Júnior (Marília, 18 de maio de 1957) é um jornalista e escritor brasileiro. Graduado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo – USP (1982) e doutor em História Social pela mesma universidade defendendo tese com o título “com Telejornovelismo – mídia e história no contexto da guerra do golfo”, sob a orientação de Nicolau Sevcenko. Autor de diversos livros, como “Esperança e paz na palestina” e “Showrnalismo”. Escreve regularmente na revista impressa “Caros Amigos” e vários “blogs-sujos” (assim são conhecidos os blogs e revista virtuais de linha progressista no Brasil). É professor do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, onde exerce o cargo de Chefe do Departamento de Jornalismo. É também docente da Escola Nacional Florestan Fernandes.

Começou sua carreira como jornalista na editoria do semanário trotskista “O Trabalho”, ligado à Organização Socialista Internacionalista (OSI), que atuava no meio estudantil com o nome de “Liberdade e Luta” – Libelú. Posteriormente, trabalhou por vários anos no jornal Folha de S. Paulo, chegando a ser o responsável pela editoria internacional do caderno “Mundo”. Deixou a Folha em 1992, por discordar da linha editorial do jornal.

fonte de ref.: wikipedia

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